Livre-arbítrio gera determinismo

Paiva Netto

 

Uns acham que temos apenas livre-arbítrio e que podemos fazer o que quisermos, sem que haja consequência. No entanto, é só observar o mundo para perceber como estão errados. Essa esbórnia que ameaça o planeta é justamente derivada disto: “Não, eu tenho livre-arbítrio! Ora, eu faço o que quiser. Eu, eu, eu!... Ademais, eu não preciso de ninguém! Eu não devo nada a ninguém! Eu valho por mim mesmo (ou por mim mesma). Quero é saber de mim. Eu, eu, eu!... Os outros que se lixem!”

Como se o que acontece com os outros não o afetasse...

Meu Irmão, será que você não deve mesmo nada a ninguém?! E Você, minha Irmã?! Ah, é?! Então, vejamos: a roupa que Você veste não foi feita por você. Rarissimamente, as pessoas confeccionam suas próprias vestimentas. Só se forem costureiras ou alfaiates. Mesmo assim, e o tecido? E os botões? Não foram feitos por eles. Vieram de alguma fábrica, de uma micro, média ou grande empresa. E a pasta de dente? E a escova? E mais: o feijão? E o arroz? Foi Você quem os plantou, meu Irmão? Foi Você, minha Irmã? É preciso urgentemente derrubar a sociedade do homem solitário, para fazer surgir a Sociedade do Ser Humano Solidário.

Recordando a máxima de Alziro Zarur (1914-1979) que concilia determinismo e livre-arbítrio, diz o ilustre poeta e pregador: “A Lei Divina, julgando o passado de homens, povos e nações, determina-lhes o futuro”.

Juntou o livre-arbítrio da criatura humana a ser medido por Deus (a Lei Divina, julgando o passado de homens, povos e nações) ao determinismo resultante dos nossos atos bons ou maus (determina-lhes o futuro). Daí surge o determinismo (bem diferente do fatalismo), mas não como algo aleatório, como uma bomba voadora que não sabemos onde cairá, uma decisão de um deus maluco que de repente resolve dividir benesses e torturas entre seres terrestres ou celestes, conforme o seu bestunto alienado. Não! Somos nós quem criamos o destino, de acordo com o emprego que fizermos do nosso livre-arbítrio. Para os que o usarem inadequadamente, o alertamento dos versículos 1 e 2 do Salmo 94:

 

“1 Ó Senhor, Deus das vinganças, ó Deus das vinganças, resplandece!*

“2 Exalta-te, ó Juiz da Terra; dá o pagamento aos soberbos!”.

 

E para os que dele fizerem, com Boa Vontade, a glória para os seus destinos, aqui e na Pátria Espiritual, o conforto do Salmo 91:1 a 16:

 

Sob a sombra do Altíssimo

“1 O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente

“2 diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.

“3 Pois Ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa.

“4 Cobrir-te-á com as Suas penas, e, sob Suas asas, estarás seguro; a Sua verdade é pavês e escudo.

“5 Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia,

“6 nem da peste que se propaga nas trevas, nem da mortandade que assola ao meio-dia.

“7 Caiam mil ao teu lado e dez mil à tua direita; tu não serás atingido.

“8 Somente com os teus olhos contemplarás e verás o castigo dos ímpios.

“9 Pois disseste: O Senhor é o meu refúgio. Fizeste do Altíssimo a tua morada.

“10 Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda.

“11 Porque aos Seus Anjos darás ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos.

“12 Eles te sustentarão nas Suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.

“13 Pisarás o leão e a áspide, calcarás aos pés o leãozinho e a serpente.

“14 Porque a mim se apegou com amor, Eu o livrarei; pô-lo-ei a salvo, porque conhece o meu nome.

“15 Ele me invocará, e Eu lhe responderei; na sua angústia Eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei.

“16 Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação”.

 

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

paivanetto@lbv.org.brwww.boavontade.com

 

_______________________

* Deus das vinganças — Estamos diante da linguagem necessariamente arrebatada dos Profetas, que precisam fazer-se escutar pelos ouvidos moucos de povos de dura cerviz. Deus jamais se vinga, porquanto é Amor. O que ocorre é que cada um receberá de acordo com suas obras, públicas ou ocultas, no decorrer das vidas sucessivas.